domingo, 30 de dezembro de 2012

A submissão de todas as coisas



No belo Jardim, o homem acorda,
Observa toda a criação e balbucia
Quando tenta descrever tamanha beleza.
Os animais dos mais belos e gigantes,
As flores exalando os melhores e mais puros aromas,
Rios com peixes que mais pareciam flechas esculpidas com precisão,
Que iam de um lado ao outro num piscar de olhos.
A água cristalina refletia outro mundo chamado imaginação.
Avistou as árvores e exclamou: existe algo mais belo que tudo isso?!

Viu a terra e um belo caminho em meio às árvores,
As aves como raios expandindo luz sobre o Jardim.
Viu ainda borboletas soltando as cores de suas asas no tronco das árvores,
O Beija-Flor inquieto como quem espera algo,
Folhas caindo e adornando o chão.
Tudo era visto com grande beleza,
Com grande agito,
Com toda grandeza,
Que só alguém tão Belo poderia criar.

Num dado momento, todas as coisas se abalam,
Um ser entra numa passarela formada por tudo que há de belo no Jardim.
O homem ainda incrédulo vê,
Que tudo se ofusca quando deparado a beleza desse ser.
Os animais forravam o caminho com seda para ele pisar,
As flores abasteciam seu perfume ao tocar em sua pele,
As águas dos rios ficaram agitadas,
Os peixes saltavam de uma margem para outra,
O Beija-Flor repousou sobre seus cabelos renunciando todas as flores,
As folhas caiam agora em reverência a sua presença.
Dificuldade ele teve ao olhar pra água quando viu a pureza que refletia
Do seu rosto que mais parecia pétalas jamais vistas.

Julgara ter visto as coisas mais lindas quando questionou a existência
De algo mais belo que o Jardim.
Toda a agitação da criação era causada pela espera,
Pela espera desse ser.


O semblante desse homem descansou quando viu a principal escultura de Deus
E toda a criação rendida como meros adornos
Que formavam a passarela desse ser chamado MULHER.
(Morais Filho)

Coração de Sertanejo

(Xilogravura de J. Borges com o tema "Mudança de Sertanejo")



Caminhando nesse dia
Cum a muié e a famía,
Levo o burro abraçado
Com a fome que nóis tinha,
Mas assim num importêmo:
procurêmo um terreno
Pá prantá cum aligria.


(Morais Filho)

domingo, 22 de julho de 2012

Apenas Um Personagem



Em pouco tempo aplausos ecoarão,
Por pouco tempo eles existirão.
Os seus passos são dados por grande motivação.
Seus passos são recheados de desilusão.
Nada importa agora (ou sempre), mas tão somente a apresentação.

Quando o barulho das mãos toma o ambiente,
Seu coração bate no mesmo ritmo,
Mas também sente a dor das batidas.
Cada passo até o palco é uma história que surge,
É também uma lança afiada entrando a cada segundo.

O sorriso no rosto trás alegria,
O sorriso no rosto é uma escultura de dores oculta ao público.

Todos de pé regozijam-se no espetáculo
Mas não viram os bastidores que o fez.
O picadeiro foi montado com pregos que prendem firme
Sua verdadeira identidade... Não passa de um personagem.

Ele pergunta como os outros estão e os outros perguntam...
Hoje tem alegria?

O público é grande, muitos olhos estão sobre ele,
Mas ninguém o vê!
Olhem pra mim! O verdadeiro exclama.
Dizem: estamos vendo nossa figura dramática preferida!
Personagem.

Aonde chega um pouco de si morre.
Quem chegou?
Ah! Hora de júbilo!

Aonde chega os escultores melhoram sua escultura (de dores).
Ela está tão bela, parece até amargurada.

Uma criança indaga: ele tá triste hoje?
Menino, quem disse que ele fica triste?
Ele é um personagem alegre, não pode!
Venha, vou te ensinar a olhar para os outros!

Ele cresce, ama, venera...
O personagem.

Há importância nos bastidores que moldam a feição?
Claro que não!
Veja, o Sol ilumina toda a Terra, porque saber sobre o ardor existente nele?
Só quero seu calor e que cumpra sua função, senão morro.
Vivo apenas do seu brilho.
Pouco me importa sobre sua temperatura ou se vai explodir.
Com ele, basta um “bom dia”.

Humanos sem profundidade,
Amantes de personagens.

(Morais Filho)

domingo, 27 de maio de 2012

Eu Vejo (di) Versos


Vejo versos nas batidas, na beleza, no encanto da destreza das asas de um beija-flor
Vejo versos nas passadas de um velho que carrega alegria ou então carrega dor
Vejo versos nas rugas de seu rosto que constroem um caminho de estradas de labor
Vejo versos na mão de um pedreiro, ferida e doída porque tanto trabalhou
Vejo versos no finco da enxada do homem que no campo suor ele deixou
Vejo versos em sua serventia, na dor do fim do dia por tudo que plantou
Vejo versos olhando para o homem e vendo o grande feito das mãos do Criador
Vejo versos por tudo o que sofria, na dor que Ele sentia, na cruz que O matou
Vejo versos no trabalho da formiga, que trabalha todo dia como um agricultor
Vejo versos no bico do passarinho que lá dentro do seu ninho o filhote alimentou
Vejo versos no abraço de um amigo que caminha ali comigo esbanjando seu amor
Vejo versos na vida de um povo que trabalha oprimido, mas que luta com pudor
Vejo versos em todo movimento, na água e no vento, no frio e no calor
Vejo versos no homem que é finito, no poeta, no indivíduo que em Deus se inspirou.
(Morais Filho)

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Nos Braços da Liberdade


Eu agora vou falar
Do que me aconteceu,
Essa história é real,
Quem vivei ela fui eu.
Acredite quem quiser,
Mas eu digo: tenham fé,
Esse caso ocorreu.

Todo dia ao chegar,
No meu canto vou pensar,
Penso bem sobre o dia,
No que posso melhorar,
E com essa melhoria
E construo moradia
Pra ideia repousar.

Quando um dia eu cheguei
Muito triste por demais,
Só queria me isolar,
E deixar tudo pra trás,
Procurei logo meu quarto
Meu lugar de desabafo
Onde enfrento temporais.

Quando o sono me bateu,
Bem cansado fui deitar,
Não queria refletir,
Nem a mente trabalhar,
Meu descanso garanti
Sem ninguém pra impedir
E meu sono incomodar.

Quando pude me deitar
Abraçado lá eu fui,
Dominado eu fiquei,
Não estava acesa a luz
Pra que eu pudesse ver
O que tava a me envolver.
Eu clamei foi por Jesus!

Foi quando fui levado
Pra um lugar distante.
Voando eu estava
Em braços flutuantes.
E quando eu viajava
Em meio à jornada,
Vi raios fumegantes.

Os braços me deixaram
Em cima de um monte,
E fui abandonado,
Só via o horizonte.
Fiquei ali sentado
Olhando pra o lado
Mas tudo se esconde.

Quando olhei pra frente
E vi tamanhos raios
Brilhando na cidade
Naquele mês de maio,
Somando eram vários,
Tão grandes esses raios
Que quase que desmaio!

Por meio dessas luzes
Eu vi a humanidade,
A terra que vivia
Com grande claridade,
E tudo que eu via
Naquele grande dia
Trazia liberdade.

Uma daquelas luzes
Formava uma criança,
Com um sorriso puro
Minh`alma ela alcança.
E além desse menino,
Pequeno e genuíno,
Eu vi a esperança.

A outra luminária
Formava a natureza,
Eu vi plantas frondosas
E toda a beleza
Que eu não percebia
Como naquele dia
Com toda a clareza.

E assim uma terceira,
Chegou à minha frente
Em forma de oceano,
E encheu a minha mente
Com a sua riqueza
Limpando a pobreza
Outrora residente.


Avançando outra luz,
Dirigiu-se até mim,
E a sua afeição
Vem coberta de cetim,
Como rosto de mulher
Muito linda ela é
Revelada para mim:

Pedra diamantina
Com um brilho sem igual,
Um simples objeto,
E eu via como tal,
Mas aquela grande luz
Me mostrou o que produz
Seu brilho fenomenal.

Vejo outra claridade,
Ela veio sobre mim,
Segurou em minha mão,
Em seguida disse assim:
Essa mão eu quero ver
As histórias escrever
Como céu que não tem fim.

E durante toda noite,
Muitas coisas avistei,
Na medida em que via,
Via tudo de uma vez,
Tudo aquilo da visão
Penetrou meu coração:
Uma luz ali se fez.

Em seguida um fulgor
Me levou para meu lar,
Com seus braços sobre mim
Começou a retornar,
Eu gritei: qual seu nome?
Pois agora sinto fome!
Como posso saciar?

Esses braços que chamei
Repousaram sobre mim,
Temeroso eu fiquei,
Quando ouvi dizendo assim:
Tudo isso te mostrei,
Tais belezas revelei
E pergunta sobre mim?


Eu peguei na sua mão,
E Mostrei a maravilha
De vê nalguma coisa
Além do que se via.
Prazer estar contigo,
Eu sou seu grande amigo
E me chamo poesia!

O poema me escolheu,
Libertou meu coração,
Sua prisão me envolveu:
Ela traz libertação.
Me fez ver muito além:
O encanto que se tem
Muito além duma visão.

E assim fiquei ali,
Inspirado eu fiquei,
Lá na mesa do meu quarto
A caneta eu peguei,
Escrevi esse cordel
Num pedaço de papel:
E a forme saciei.
(Morais Filho)