Foi
no sito de tio Zé
Que
ouvi uma conversa
Entre
um advogado
E
um doutor que se apressa
Pra
falar sobre os outros
E
travar uma conversa.
Quando
menos esperei
Muita
gente se unia,
No
lugar da reunião
Pra
o debate que viria
Com
doutor, advogado,
Professor
era o que via!
Um
dentista popular,
Um
político “exemplar”,
Um
padeiro se meteu,
Na
conversa ia falar,
Dando
uma de sabido:
Uma
surra vai levar!
Quando
eu olhei de lado
Vi
chegando um engenheiro
Que
entende de edifício
E
assim ganha dinheiro,
Ele
ia pra o debate
E
seu passo era ligeiro!
Eu
Confuso e curioso
Não
sabia de mais nada!
Por
que homens de escalão
Debatiam
na calçada
Construída
por meu tio,
Lá
em frente a sua casa.
Eu
pensei: vou espiar,
Está
pronta a começar,
No
debate de doutores
Coisa
boa vai rolar.
E
deixando meu lugar,
Caminhando
fui pra lá.
Com
o tempo que esperei
Muita
gente lá chegou,
Tinha
toda qualidade,
Todo
tipo de doutor,
Só
não tinha gente burra,
Gente
que não se formou.
Muito
atento e curioso
Escolhi
um bom lugar.
A
conversa começou,
Eu
só vou observar,
Confrontar
a discussão:
Só
me pondo a pensar.
Quando
um líder levantou,
A
partida ele vai dar.
Ele
pede atenção:
O
advogado vai falar.
O
assunto da cadeia,
É
seu tema a tratar.
Ele
fala dos recursos,
Do
problema existente,
E
reclama do estado,
Bota
culpa em toda gente:
No
prefeito da cidade,
No
pedreiro e servente.
Continua
comentando
Sobre
a falta de amor,
Sobre
esses assassinos
Que
só matam sem pudor.
Ele
diz que tem a lei,
Como
herói ele ficou.
Encerrando
sua fala
O
lugar ele cedeu
Para
um famoso amigo
Com
o nome Irineu,
Um
doutor bem respeitado.
E
atento estava eu!
O
doutor pra começar
Pede
um banco como altar,
Pois
só fala dessa forma
Pra
o povo avistar.
Sobre
os casos de saúde
É
seu tema a tratar.
O
discurso é repetido,
Como
o amigo ele fala,
Ele
cobra os recursos,
E
gritando não se cala.
Preocupado
ele tá
Com
o birô de sua sala.
Os
remédios tão faltando
Pra
aplicar nos pacientes,
Todo
mundo é culpado,
Todo
mundo é negligente.
O
problema da saúde
O
doutor é quem defende.
Aplaudido
e venerado
Ele
desse do altar,
Quando
logo aproxima
Um
docente pra falar
Sobre
escolas maltrapilhas
Existentes
no lugar.
Ele
fala do salário,
Das
carteiras a sentar,
Que
quebradas na escola
Continuam
a estar.
Culpa
todos os alunos,
Pois
não sabem estudar.
Eu
estava lá na minha
E
comecei a refletir:
Esses
homens lançam culpa
Sobre
todos por aqui,
Mas
o quê eles tem feito
Pra
mudar e intervir?
Mas
ali no meu lugar
E
com medo de falar,
Só
restava uma coisa:
Prosseguir
a escutar.
Eles
são nossos doutores,
Eu
não sei argumentar.
O
padeiro ainda quis
Uma
prosa iniciar,
Foi
cortado lá na hora,
Um
se pôs a perguntar:
Você
tem uma formação
Pra
que possa nos falar?
O
coitado foi embora
Nem
o fim ele ouviu.
Os
doutores agradecem
E
chamando um civil,
Um
soldado influente.
No
altar ele subiu.
Criticou
as viaturas,
O
salário mencionou,
E
é sempre humilhado,
Pelo
povo arriscou
Sua
vida numa praça,
Nem
se quer ontem jantou.
Sua
revolta foi notória
Quando
fala da noitada,
Ele
prende os ladrões,
Ele
cumpre sua jornada,
E
se mostra um bom vigia:
Que
com ele nada escapa!
Eu
já tava impaciente
Com
vontade de falar,
Quando
pra minha surpresa,
Um
senhor que estava lá
Disse:
agora eu quem falo
E
vocês vão escutar!
Quando
todos o ouviram
Os
aplausos começaram,
Pois
queriam escutar
Esse
homem que amavam.
Januário
agricultor:
O
seu nome entoavam.
Januário
era baixinho,
Ele
pede sua licença,
Ele
toma seu lugar,
O
altar ele dispensa.
Os
doutores se admiram,
Por
amarem sua presença.
Mas
tentaram impedir:
Nem
formado ele era.
Como
pode nos falar?
Perguntaram
pra galera.
E
ouviram o seguinte:
Ele
ensina sobre a terra!
E
depois da discussão
Resolveram
então deixar.
O
senhor agricultor
Com
a palavra vai falar
Sobre
a situação:
Sobre
a fome popular.
E
começa seu discurso.
Aos
doutores ele diz:
Eu
ouvi as suas falas,
Sou
um mero aprendiz,
Pois
eu peço paciência
Pra
um pobre mas feliz.
Eu
não quero aqui dizer
Que
o que falam é mentira,
Mas
eu quero expressar
O
que mina a alegria,
E
que deixa todo homem
Reclamando
todo dia.
É
verdade que recursos
São
tão poucos pra vocês,
Que
o doutor advogado
Ao
falar em sua vez
Reclamou
de todo mundo
Mas
com pouco nada fez.
Eu
entendo o doutor
Nosso
médico Irineu,
Só
não dá pra entender
O
discurso que foi teu:
Ele
fala dos remédios
Mas
tão pouco ele deu!
Os
alunos da escola
Foram
alvos de vocês,
Quando
nosso professor
Nos
falou por sua vez,
Que
aqui nossas escolas
Tão
em grande escassez.
Eu
pensei aqui por mim
Como
anda a educação
Exercida
por vocês
Que
estão na posição
Esperada
pelo povo
Sem
mostrar uma ação.
E
por fim quero citar
Esse
nobre guardador,
O
civil que está aqui
E
verdade nos falou,
Nós
sabemos dessa luta
Do
perigo que passou.
O
problema que eu vejo
Parte
muito de vocês.
Pelo
pouco que se tem
Na
cidade, cada mês,
Vocês
podem produzir
Um
“poquin” de cada vez!
Eu
falei nessa conversa
Que
entendo o que passa
Não
retiro o que disse
Sobre
toda essa massa,
O
problema só persiste
Nos
levando a desgraça.
Quando
ainda falava
O
prefeito então falou
Com
o pobre Januário
E
assim o perguntou:
O
que queres ensinar?
Pois
aqui só tem doutor!
Januário
muito sábio
Muito
calmo ali ficou,
Respondendo
a pergunta
Que
o prefeito perguntou,
Ele
conta a história
Duma
terra que mudou.
Prosseguindo
na conversa
E
com sua maestria
Ele
explica de tal forma
O
que faz durante o dia,
Ele
toma a posição
E
os fala com alegria:
Como
um agricultor
Eu
entendo sobre terra,
Mas
pra isso eu aprendi
Apanhando
na miséria,
Não
foi fácil para mim,
Mas
a luta era séria.
Me
queixava duma chuva
Que
caía lá no sul,
Perguntava
ao meu Deus
Sobre
esse céu azul,
Porque
não escurecia,
Como
a cor do Urubu.
Eu
falava da enxada
Que
com ela trabalhava,
Ela
era tão ruim
Que
a vontade que me dava
Era
de jogar pro alto
Tudo
aquilo que plantava.
Reclamava
das sementes,
Muitas
vezes eram fracas,
Tinha
mais erva daninha
Que
aquilo que esperava.
E
assim só murmurando
Todo
dia trabalhava.
E
quando dei por mim
Comecei
a retrucar:
Essa
forma de trabalho
“Prum”
lugar vai me levar:
Para
o canto dos covardes
Que
só sabem reclamar.
Decidi
no outro dia:
Novo
rumo vou tomar!
Vou
tratar meu coração,
Vou
regá-lo pra plantar,
Quando
ele tiver pronto,
Bom
trabalho vou gerar.
Com
um novo coração,
Lá
pra terra eu voltei,
Com
aquilo que eu tinha
Grande
coisa aproveitei,
Comecei
a avistar
Todo
fruto que plantei.
E
assim eu percebi
Que
pra gente murmurar,
Exigir
novos recursos,
E
dos outros ir cobrar,
É
no nosso coração
Que
devemos começar.
Se
queremos produzir
Para
frutos contemplar,
Com
o pouco que nós temos
E
sem mesmo reclamar,
Nós
devemos é agir
E
assim vamos mudar.
Essa
fome desse povo
Tá
voltada pra vocês,
Elas
olham para frente
E
só vêem escassez:
Uma
terra sofredora
Não
regada por vocês.
Com
o pouco que se tem
Vocês
podem trabalhar,
Se
esforcem, vão à luta,
Essas
obras vão chegar!
E
talvez essa partida
Só
vocês podem tomar!
Quando
isso acontecer,
Jovens
frutos surgirão,
Muitos
outros ajudantes,
E
vocês se alegrarão
Com
aquilo que fizeram
Com
o pouco em suas mãos.
Quando
vi aqueles campos
Bem
frondosos e bonitos,
Eu
sabia o motivo
Que
casou o reboliço
Nas
sementes que plantei:
E
parecem um paraíso!
E
eu deixo minha frase
Pra
vocês de escalão:
Esses
casos vão mudar
Mediante
a ação
Do
renovo dessa terra
Que
se chama coração.
E
assim o agricultor
Encerrou
a sua fala.
Os
doutores não sabiam,
Que
ali também estava,
Esse
mestre plantador
Da
semente que faltava.
Nessa
hora então sai,
Fui
pra casa e chorei,
O
que ouvi naquela hora,
Muita
coisa pratiquei,
Mas
depois daquele dia
Minha
terra renovei.
(Morais
Filho)