quarta-feira, 11 de abril de 2012

A Semente Que Faltava


Foi no sito de tio Zé
Que ouvi uma conversa
Entre um advogado
E um doutor que se apressa
Pra falar sobre os outros
E travar uma conversa.

Quando menos esperei
Muita gente se unia,
No lugar da reunião
Pra o debate que viria
Com doutor, advogado,
Professor era o que via!

Um dentista popular,
Um político “exemplar”,
Um padeiro se meteu,
Na conversa ia falar,
Dando uma de sabido:
Uma surra vai levar!

Quando eu olhei de lado
Vi chegando um engenheiro
Que entende de edifício
E assim ganha dinheiro,
Ele ia pra o debate
E seu passo era ligeiro!

Eu Confuso e curioso
Não sabia de mais nada!
Por que homens de escalão
Debatiam na calçada
Construída por meu tio,
Lá em frente a sua casa.

Eu pensei: vou espiar,
Está pronta a começar,
No debate de doutores
Coisa boa vai rolar.
E deixando meu lugar,
Caminhando fui pra lá.

Com o tempo que esperei
Muita gente lá chegou,
Tinha toda qualidade,
Todo tipo de doutor,
Só não tinha gente burra,
Gente que não se formou.

Muito atento e curioso
Escolhi um bom lugar.
A conversa começou,
Eu só vou observar,
Confrontar a discussão:
Só me pondo a pensar.

Quando um líder levantou,
A partida ele vai dar.
Ele pede atenção:
O advogado vai falar.
O assunto da cadeia,
É seu tema a tratar.

Ele fala dos recursos,
Do problema existente,
E reclama do estado,
Bota culpa em toda gente:
No prefeito da cidade,
No pedreiro e servente.

Continua comentando
Sobre a falta de amor,
Sobre esses assassinos
Que só matam sem pudor.
Ele diz que tem a lei,
Como herói ele ficou.

Encerrando sua fala
O lugar ele cedeu
Para um famoso amigo
Com o nome Irineu,
Um doutor bem respeitado.
E atento estava eu!

O doutor pra começar
Pede um banco como altar,
Pois só fala dessa forma
Pra o povo avistar.
Sobre os casos de saúde
É seu tema a tratar.

O discurso é repetido,
Como o amigo ele fala,
Ele cobra os recursos,
E gritando não se cala.
Preocupado ele tá
Com o birô de sua sala.

Os remédios tão faltando
Pra aplicar nos pacientes,
Todo mundo é culpado,
Todo mundo é negligente.
O problema da saúde
O doutor é quem defende.

Aplaudido e venerado
Ele desse do altar,
Quando logo aproxima
Um docente pra falar
Sobre escolas maltrapilhas
Existentes no lugar.

Ele fala do salário,
Das carteiras a sentar,
Que quebradas na escola
Continuam a estar.
Culpa todos os alunos,
Pois não sabem estudar.

Eu estava lá na minha
E comecei a refletir:
Esses homens lançam culpa
Sobre todos por aqui,
Mas o quê eles tem feito
Pra mudar e intervir?

Mas ali no meu lugar
E com medo de falar,
Só restava uma coisa:
Prosseguir a escutar.
Eles são nossos doutores,
Eu não sei argumentar.

O padeiro ainda quis
Uma prosa iniciar,
Foi cortado lá na hora,
Um se pôs a perguntar:
Você tem uma formação
Pra que possa nos falar?

O coitado foi embora
Nem o fim ele ouviu.
Os doutores agradecem
E chamando um civil,
Um soldado influente.
No altar ele subiu.

Criticou as viaturas,
O salário mencionou,
E é sempre humilhado,
Pelo povo arriscou
Sua vida numa praça,
Nem se quer ontem jantou.

Sua revolta foi notória
Quando fala da noitada,
Ele prende os ladrões,
Ele cumpre sua jornada,
E se mostra um bom vigia:
Que com ele nada escapa!

Eu já tava impaciente
Com vontade de falar,
Quando pra minha surpresa,
Um senhor que estava lá
Disse: agora eu quem falo
E vocês vão escutar!

Quando todos o ouviram
Os aplausos começaram,
Pois queriam escutar
Esse homem que amavam.
Januário agricultor:
O seu nome entoavam.

Januário era baixinho,
Ele pede sua licença,
Ele toma seu lugar,
O altar ele dispensa.
Os doutores se admiram,
Por amarem sua presença.

Mas tentaram impedir:
Nem formado ele era.
Como pode nos falar?
Perguntaram pra galera.
E ouviram o seguinte:
Ele ensina sobre a terra!

E depois da discussão
Resolveram então deixar.
O senhor agricultor
Com a palavra vai falar
Sobre a situação:
Sobre a fome popular.

E começa seu discurso.
Aos doutores ele diz:
Eu ouvi as suas falas,
Sou um mero aprendiz,
Pois eu peço paciência
Pra um pobre mas feliz.

Eu não quero aqui dizer
Que o que falam é mentira,
Mas eu quero expressar
O que mina a alegria,
E que deixa todo homem
Reclamando todo dia.

É verdade que recursos
São tão poucos pra vocês,
Que o doutor advogado
Ao falar em sua vez
Reclamou de todo mundo
Mas com pouco nada fez.

Eu entendo o doutor
Nosso médico Irineu,
Só não dá pra entender
O discurso que foi teu:
Ele fala dos remédios
Mas tão pouco ele deu!

Os alunos da escola
Foram alvos de vocês,
Quando nosso professor
Nos falou por sua vez,
Que aqui nossas escolas
Tão em grande escassez.

Eu pensei aqui por mim
Como anda a educação
Exercida por vocês
Que estão na posição
Esperada pelo povo
Sem mostrar uma ação.

E por fim quero citar
Esse nobre guardador,
O civil que está aqui
E verdade nos falou,
Nós sabemos dessa luta
Do perigo que passou.

O problema que eu vejo
Parte muito de vocês.
Pelo pouco que se tem
Na cidade, cada mês,
Vocês podem produzir
Um “poquin” de cada vez!

Eu falei nessa conversa
Que entendo o que passa
Não retiro o que disse
Sobre toda essa massa,
O problema só persiste
Nos levando a desgraça.

Quando ainda falava
O prefeito então falou
Com o pobre Januário
E assim o perguntou:
O que queres ensinar?
Pois aqui só tem doutor!

Januário muito sábio
Muito calmo ali ficou,
Respondendo a pergunta
Que o prefeito perguntou,
Ele conta a história
Duma terra que mudou.

Prosseguindo na conversa
E com sua maestria
Ele explica de tal forma
O que faz durante o dia,
Ele toma a posição
E os fala com alegria:

Como um agricultor
Eu entendo sobre terra,
Mas pra isso eu aprendi
Apanhando na miséria,
Não foi fácil para mim,
Mas a luta era séria.

Me queixava duma chuva
Que caía lá no sul,
Perguntava ao meu Deus
Sobre esse céu azul,
Porque não escurecia,
Como a cor do Urubu.

Eu falava da enxada
Que com ela trabalhava,
Ela era tão ruim
Que a vontade que me dava
Era de jogar pro alto
Tudo aquilo que plantava.

Reclamava das sementes,
Muitas vezes eram fracas,
Tinha mais erva daninha
Que aquilo que esperava.
E assim só murmurando
Todo dia trabalhava.

E quando dei por mim
Comecei a retrucar:
Essa forma de trabalho
“Prum” lugar vai me levar:
Para o canto dos covardes
Que só sabem reclamar.

Decidi no outro dia:
Novo rumo vou tomar!
Vou tratar meu coração,
Vou regá-lo pra plantar,
Quando ele tiver pronto,
Bom trabalho vou gerar.

Com um novo coração,
Lá pra terra eu voltei,
Com aquilo que eu tinha
Grande coisa aproveitei,
Comecei a avistar
Todo fruto que plantei.

E assim eu percebi
Que pra gente murmurar,
Exigir novos recursos,
E dos outros ir cobrar,
É no nosso coração
Que devemos começar.

Se queremos produzir
Para frutos contemplar,
Com o pouco que nós temos
E sem mesmo reclamar,
Nós devemos é agir
E assim vamos mudar.

Essa fome desse povo
Tá voltada pra vocês,
Elas olham para frente
E só vêem escassez:
Uma terra sofredora
Não regada por vocês.

Com o pouco que se tem
Vocês podem trabalhar,
Se esforcem, vão à luta,
Essas obras vão chegar!
E talvez essa partida
Só vocês podem tomar!

Quando isso acontecer,
Jovens frutos surgirão,
Muitos outros ajudantes,
E vocês se alegrarão
Com aquilo que fizeram
Com o pouco em suas mãos.

Quando vi aqueles campos
Bem frondosos e bonitos,
Eu sabia o motivo
Que casou o reboliço
Nas sementes que plantei:
E parecem um paraíso!

E eu deixo minha frase
Pra vocês de escalão:
Esses casos vão mudar
Mediante a ação
Do renovo dessa terra
Que se chama coração.

E assim o agricultor
Encerrou a sua fala.
Os doutores não sabiam,
Que ali também estava,
Esse mestre plantador
Da semente que faltava.

Nessa hora então sai,
Fui pra casa e chorei,
O que ouvi naquela hora,
Muita coisa pratiquei,
Mas depois daquele dia
Minha terra renovei.
(Morais Filho)

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